Em seu discurso de abertura da COP30 em Belém, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva convocou o mundo a agir pela preservação ambiental e enfatizou a necessidade de acabar com os combustíveis fósseis e o desmatamento. Destacando a mobilização coletiva por justiça social e a cooperação em um mundo dividido, Lula propôs que a conferência estabeleça um “mapa do caminho” para reverter o desmatamento até 2030 e acelerar a transição energética. O presidente também ressaltou os impactos drásticos da crise climática e a urgência de transformar a COP30 em uma conferência de resultados concretos.
As reações de especialistas e organizações ambientais ao pronunciamento foram marcadas por um tom de aprovação cautelosa, reconhecendo a força das palavras, mas cobrando coerência entre discurso e prática.
Cobrança por ações concretas
Marcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima, ecoou a proposta presidencial: “É exatamente do que precisamos e é exatamente o que esperamos que a presidência da conferência coloque como proposta sobre a mesa. O sucesso da COP30 se dará ao transformar as palavras do presidente brasileiro em resolução final.”
Carolina Pasquali, diretora executiva do Greenpeace Brasil, classificou o discurso como “forte”, mas alertou: “Para essa COP entrar para história, é preciso concretizar a promessa de sairmos de Belém com um mapa do caminho. Precisamos de planos concretos, mecanismos de implementação e fontes claras de financiamento.”
A contradição do petróleo
A intenção do governo de perfurar petróleo na Foz do Amazonas gerou críticas contundentes. Ilan Zugman, diretor para a América Latina e o Caribe da 350.org, apontou a incoerência: “Há uma profunda contradição entre convocar o mundo a proteger nossa casa comum e, ao mesmo tempo, aprovar nova perfuração de petróleo na Foz do Amazonas.”
Andreas Sieber, diretor associado de Políticas e Campanhas da mesma organização, foi direto: “O presidente Lula não pode ser, ao mesmo tempo, uma liderança pela justiça climática e um dos países que mais expandem a produção de petróleo no mundo.”
A diretora executiva do Greenpeace Brasil, Carolina Pasquali, acrescentou que “seguir insistindo em explorar petróleo na Foz do Amazonas ou atrasar a demarcação de territórios indígenas, que aguardam há décadas por essa garantia, expõe contradições que não cabem em um momento tão importante para o nosso país e para o Planeta.”
Expectativas sobre financiamento e natureza
Marta Salomon, especialista sênior do Instituto Talanoa, destacou que o discurso “aumenta a expectativa de que a COP 30 desenhe um ‘mapa do caminho’ para longe dos combustíveis fósseis e para mobilizar recursos necessários” para evitar as perdas que o próprio presidente classificou como drásticas.
Tatiana Oliveira, especialista em clima e líder de estratégia internacional do WWF-Brasil, elogiou a sinalização para o Pacote Natureza: “Essa é uma demanda que o WWF-Brasil e outras organizações da sociedade civil defendem para estreitar as sinergias entre as três diferentes convenções do Rio: de clima, biodiversidade e desertificação.”
A lacuna da adaptação climática
Flávia Martinelli, especialista em mudanças climáticas do WWF-Brasil, chamou atenção para uma ausência no pronunciamento: “O presidente Lula listou vários impactos e consequências da crise climática e também a urgência da COP30 de mostrar resultados por meio da mitigação, mas não mencionou a importância da adaptação climática.”
Há consenso entre os especialistas: o discurso estabeleceu um tom ambicioso, mas o legado da COP30 e da presidência brasileira dependerá da capacidade de transformar promessas em compromissos vinculantes e ações efetivas.